Lorenço Oliveira

jornalista // especialista em digital // web designer
Como a criação do site de um psicanalista ajudou a descobrir meu estilo criativo

Como a criação do site de um psicanalista ajudou a descobrir meu estilo criativo

Paulo é um psicólogo que atua em Osório (RS). Sua ideia era ter um espaço na internet que pudesse transmitir de maneira única seu estilo clínico: “uma clínica que acolha a imprevisibilidade da vida”. 

A minha missão foi desenvolver um site que pudesse conceber percursos de leitura para os seus pacientes e que pudesse contar um pouco sobre sua escuta psicanalítica. Sim, além de psicólogo formado, Paulo é mestre em psicanálise e segue linha lacaniana. 

O desafio foi desenhar um site agradável, fluído e que também não fosse tão simples. Para isso, foi preciso entender sua abordagem clínica para encontrar a melhor disposição gráfica para seus textos e buscar as imagens que melhor pudessem contar a sua história. 

Imersão em Lacan

Durante este processo Paulo se confrontou com diversas questões que desconhecia. O site levou cerca de dois meses e meio para ser concluído, um tempo relativamente longo em circunstâncias normais. Foram horas de reuniões pelo Zoom e dezenas de áudios no WhatsApp. Como se diz no jargão do meio psicanalítico, não chegamos a entrar em análise, mas, certamente, ocorreram alguns transferências (de conhecimento). 

Entender qual era o objetivo do meu cliente passou também por ouvir alguns podcasts sobre Jacques Lacan. Este psicanalista francês que ficou famoso por retornar a Freud e fundar uma nova vertente teórica de psicanálise explodiu a minha cabeça. A minha missão, portanto, era apresentar o profissional de forma simples na internet, mas que não fosse apenas uma adaptação bonita do seu currículo lattes. Paulo tinha uma metáfora na cabeça e alguns textos pré-escritos. O que faltava era organizar tudo isso numa experiência única e sem citar (demais) Freud e Lacan. 

Mesmo depois de apresentar-lhe algumas sugestões, eu ainda não estava satisfeito com os layouts pré-formatados que havia apresentado para Paulo. Faltava singularidade e alguma inventividade no novo espaço virtual. 

Mais escultura, menos pintura

Descobri que talvez o meu processo criativo tenha mais a ver com a de um psicanalista do que com a de um psicoterapeuta. Posteriormente, a minha analista me explicou uma analogia que Freud fez no campo das artes sobre isto: 

“A maneira de trabalho do psicoterapeuta é como a de um pintor, pela via de colocar (via di porre), pois está sempre adicionando tinta e distribuindo na tela. Já o psicanalista, ao contrário, atua como a de um escultor, pela via de retirar (via di levare), e está sempre subtraindo lascas de pedra.”

Só o fato de perceber que talvez eu seja mais um escultor do que um pintor de sites, já valeu o empenho em executar este projeto. O discurso de Paulo ainda me fez conhecer uma série de preposições sobre como a psicanálise faz uso do discurso para abordar questões como infância e parentalidade. Então, mais uma vez me deparei com uma questão fundamental em meu trabalho. 

Linguagem de programação: a palavra

Preciso confessar que não sou um profissional com profundos conhecimentos de linguagens de programação. Trabalho atualmente com a ferramenta Divi Builder em plataformas WordPress, ou seja, recursos de “drag-and-drop” e poucas linhas de código. Tenho um domínio de HTML, CSS, JavaScript e PHP limitado às demandas que me surgem. No final das contas, a linguagem que mais utilizei para executar este site foi a palavra. 

O trabalho semântico de um site é mais do que arrastar e colar módulos de WordPress. A grande questão para mim foi corrigir uma etapa fundamental pela qual eu havia passado batido: a arquitetura de informação. 

Assim voltei as folhas de ofício e comecei a desenhar wireframes, nuvem de palavras, sinônimos, antônimos, grupos de tags, listas intermináveis. Cheguei a revisitar as aulas de hipermídia da professora Andreia Mallmann para lembrar como se fazia uma taxonomia e fluxogramas. Era basicamente pegar a pedra bruta novamente e lapidá-lo do início. O processo demorou mais, mais acabei realizando uma imersão mais intensa no cerne do estilo clínico de Paulo 

Olhando agora nem parece que este projeto trilhou uma série de etapas e horas de construções de um mapa de interligações e caminhos possíveis. Todo esse processo poderia ter sido mais simples, mas acredito o site teve o tempo necessário de elaboração. De certa maneira, se encaixa com a forma que Paulo trabalha: respeitando o tempo de cada coisa e acolhendo o imprevisível da vida. 

Crédito da imagem: Edurne Chopeitia.